quarta-feira, 23 de novembro de 2016

APRESENTAÇÃO DO LIVRO MAIS SOL QUE SOMBRA


Mais sol que sombra. 

Parecia que daqui nunca tinha saído, no entanto, a aldeia mostrava-se, aos meus olhos, mais brilhante, mais solar. 

As sombras, essas, pareciam mais suaves, ficando claro, para mim, que muito havia mudado.

As rotinas da minha aldeia estavam-me nas entranhas, o meu regresso a Estoi foi o retornar às origens, revivendo, in loco, as memórias da minha vivência.

No país floresceu o desejo de realizar obra em prol dos outros, com isso germinou uma sociedade mais fraterna. 

Uma genuína vontade de ser solidário apossou-se desta gente, varrendo o país, como se fosse uma lufada de ar fresco, retirando o cheiro salazarento do passado. 

Testemunhei, a cada dia, a espantosa transformação destas gentes, os esforços titânicos para recuperar o tempo perdido, culturalmente e socialmente falando. Foi emocionante perceber as mutações sociais e políticas que foram metamorfoseando os jovens desta terra, transformando-os em homens e mulheres mais solidários e mais cultos. 

Todos eles arrancados do marasmo, pelas mãos de líderes respeitados, pela atitude de entrega às causas da liberdade e da cultura, muitos vultos anónimos, por esse país fora.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

MARCHA CORRIDA DE ESTOI



sexta-feira, 19 de agosto de 2016

AS ABARCAS


(António Tomé, (José Luís!?..), Silvério, José Borges, José Manuel Ameixeira e José Tomé (em cima camisa xadrez) e outros que não conseguimos identificar...)


… À memória chegam-nos imagens imemoriais de amigos Estoienses, que o passar dos anos não apaga de nossas memórias colectivas!

Chegam-nos da mais tradicional e consensual romaria dos “afectos”, da alegria, da amizade, do companheirismo, da igualdade entre pessoas e sexos, a Festa da Pinha, que em 2 de Maio de cada ano refulge imparável em Estoi.

Alguns, os seus detratores, os “Velhos do Restelo” da desgraça, do imobilismo, catalogam-na, hoje em dia, como a “Festa dos bêbados”(!), tão só e apenas porque uma minoria das centenas e centenas dos seus participantes, se escondem na bebida, procurando nesse dia, recalcar as suas feridas e frustrações de todo um ano mal vivido.

Jamais desistiremos de defender, escrupulosamente, os nobres princípios dos “almocreves” ou “romeiros”, que nesse dia exaltamos e trazemos à ribalta.

Estoi, a nossa aldeia, merece que assim seja e continue fiel à nobre tradição de receber e saber receber, quem nela se incorpora ou a visita.

A tradição das “abarcas”, assim como que uma réplica da luta greco-romana, em que dois homens debruçados sobre si, agarrando-se nos ombros e braços, lutavam, respeitosamente e com desportivismo, por deitar o parceiro ao chão.
Quem assim o fazia, era de imediato considerado vencedor e após breve descanso, iria lutar com outro parceiro, cioso de o destronar e assim por diante.

Era tradicional no dia 2 de Maio, na Festa da Pinha de Estoi, no recinto arenoso, ou terreiro do Ludo, logo após o almoço dos “almocreves”, uma grande roda de “abarquejadores” e mirones, ali se juntar, num abraço fraterno à procura da exaltação vitoriosa do maior valentão desse ano, quase sempre premiado com uma simbólica taça, ou medalha alusiva, pela Organização da Festa.

Corria por aí os anos de 1950 / 51, quando um dos mais carismáticos “abarquejadores” da Pinha surgiu em força. Seu nome, o inesquecível e felizmente ainda vivo e de boa saúde e memória, Zé Tomé. Sim, o tal do Café Ossónoba de Estoi, o do sorriso e riso inimitável, onde assistimos, altas horas da madrugada, à chegada do homem à Lua, acompanhados por incrédulos Estoienses, que jogando ao dominó ou ao “Embido”, riam com os “filmes que os americanos inventavam para deitar poeira para os nossos olhos”, não ligando patavina ao que a televisão, cheia de interferências e a preto e branco, esbugalhava os olhos meio sonolentos de alguns jovens estudantes estupefactos com tamanha façanha!

Esse mesmo Zé Tomé, que nos oferecia uma garrafa de litro de leite da Ucal, sempre que vindos da Alameda de Faro, cilindrávamos as demais Equipas de futebol de salão, onde fomos campeões distritais, representando as cores da nossa Casa do Povo, a mais antiga das 36 Casas do Povo do Algarve, (azul grenat e encarnado), a tal Equipa da “alfarroba” como éramos catalogados e com muito orgulho nosso, vencedores…

Pois por esse ano, o bom do Zé Tomé, que pela primeira vez foi à Pinha, acompanhado pelo seu irmão mais velho, António Tomé, na foto sobre os ombros de outro “almocreve” (José Luís!?..), bela estampa de homem, teria 20, 21 anos de idade, com camisa aos quadrados, vendo-se ainda o conhecido Silvério, (Contínuo no Clube Estoiense), o José Borges, seu filho, o José Manuel Ameixeira (foi guarda-redes em Estoi) e o António Tomé, entre outros folgazões. Como dizia, o António Tomé convidou o irmão, Zé Tomé, para abarquejar e, logo aí se viu as qualidades gímnicas do nosso Campeão, que, não demorou muito, deitou por terra o irmão mais velho e todos aqueles que o quiseram experimentar.
A partir desse ano, jamais o anonimato deixou de acompanhar o nosso “campeão das abarcas”, como muitas vezes que o vejo em Faro e com ele recordo episódios da nossa adolescência, revivendo tempos áureos que vivemos em Estoi, a aldeia que está nos nossos corações!.. A “nossa aldeia”.

Ofereceu-me, o amigo Zé Tomé, hoje rondando os 87 anos de idade, sempre acompanhado por sua linda e amada esposa, para recordarmos e revivermos tempos que já não voltam(!), esta foto aqui exposta, sabendo que irá ser divulgada na página ou “blog” “Aldeia de Estoi”, do comum amigo Zé Joaquim, correndo mundo, entrando nas casas de quem a visita, roubando, quiçá, uma furtiva e incontida lágrima de saudade, àqueles que, sendo de Estoi, dela estão fisicamente afastados, muito embora a tenham sempre, sempre no coração!

A todos os Estoienses e amantes da Festa da Pinha, o exemplo deste homem simples, sério e trabalhador, que muito deu a Estoi com a hospitalidade do seu e nosso Café Ossónoba, frequentado por ricos e pobres, novos ou seniores, com respeito, com postura, com verticalidade e com aquele riso contagiante, incontrolável e melódico, que nos enchia o espírito e a alma de satisfação. “O Rei das Abarcas”, que deitou por terra, centenas de pseudo-valentões que o procuravam, mesmo fora da Festa da Pinha e que também levaram o “tempero” devido. (Alguns até desconfiaram e quiseram tirar desforço do nosso Campeão, mas continuaram sempre com o mesmo “tempero”…)

Força Campeão!
Os verdadeiros “Almocreves” e Estoienses jamais te esquecerão
Porque não querem, não querem não
Bater com os costados, com força no chão…

Agosto de 2016
(J. Aleixo)